A ferramenta de IA que comprou não está a dar o retorno prometido, e a explicação habitual — falta de investimento, falta de dados, falta de talento — não fecha as contas. Há uma causa mais desconfortável, e foi nomeada em julho, na Conferência .IA, por Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC Portugal: o principal travão à adoção de inteligência artificial não está na tecnologia. Está na forma como a organização toma decisões.
A afirmação não é retórica de palco. Em entrevista ao ECO, o mesmo responsável foi mais longe: a maioria das empresas em Portugal continua, hoje, a decidir como decidia há dez anos — antes de a IA existir. E defendeu que os apoios à inovação não devem servir para escalar o que já se fazia, mas para transformar o modelo de negócio.
Aqui está o mecanismo que quase ninguém explica antes de vender software. Uma ferramenta de IA acelera a execução de um processo. Não redesenha o processo. Se a decisão a montante depende de três aprovações sequenciais e de uma reunião que só acontece à quinta-feira, a IA continua a entregar a mesma decisão — no mesmo ritmo — com um custo de licença a mais. A lentidão não estava na execução. Estava na estrutura de decisão. E é essa que a ferramenta não toca.
Por isso ter talento, infraestrutura e dados são condições necessárias e, mesmo assim, insuficientes. O que separa a empresa que capta valor da IA da que apenas gasta com ela é a capacidade de absorver conhecimento novo, alterar processos e reorganizar-se para operar de outra forma. As organizações que decidem depressa, nas palavras de Jorge Portugal, são as que já prepararam a forma como decidem.
O que isto significa para quem gere uma PME é uma inversão de ordem. Antes de escolher a próxima ferramenta, o trabalho útil é olhar para dentro: onde é que uma decisão fica retida à espera de aprovação, que processo ninguém revê há anos por inércia, e o que é que a IA aceleraria — em vez de apenas encarecer um gargalo que já existia. Automatizar um processo mal desenhado não o corrige; fixa-o mais fundo, e agora com fatura mensal.
Esse diagnóstico — separar o que é problema de processo do que é problema de ferramenta — é a parte com mais variáveis por caso, e é também a que decide se o investimento em IA se paga ou se transforma em custo afundado. Raramente se resolve comprando software. Resolve-se com alguém que consiga ler a organização por dentro antes de a automatizar por fora.
Este conteúdo é informativo. Cada organização decide de forma distinta, e é essa diferença que determina onde a IA acrescenta valor e onde só adiciona custo — uma leitura que merece ser feita caso a caso.

